E se Marx acordasse hoje nesse mundo: por que a academia ainda gira em torno de um modelo que já não existe?

02/05/2026

O que aconteceria se Karl Marx acordasse hoje nesse mundo e visse a realidade do século XXI? Muito provavelmente, ele não reconheceria o sistema que dedicou a vida a analisar. Mais do que isso: perceberia que as categorias centrais de sua obra foram construídas para uma estrutura econômica que simplesmente deixou de existir — e talvez se surpreendesse ao descobrir que, ainda assim, continua sendo tratado como referência obrigatória para explicar o presente.

A provocação não é retórica. Ela expõe um paradoxo acadêmico: o capitalismo mudou radicalmente, mas o eixo de crítica dominante em parte das universidades permanece ancorado em um modelo do século XIX.

O capitalismo que Marx analisou morreu

A base empírica de O Capital (que ao contrário de muitos por aí que se dizem marxistas, eu li) era o capitalismo industrial europeu. O centro do sistema estava na fábrica, na produção material, na relação direta entre operário e proprietário dos meios de produção. Valor era medido a partir do trabalho incorporado à mercadoria. O conflito estrutural se organizava em torno de duas classes bem delimitadas.

Esse mundo não é mais o nosso.

Hoje, o núcleo da geração de riqueza deslocou-se para:

• ativos intangíveis

• propriedade intelectual

• dados

• plataformas digitais

• finanças globais

• algoritmos

Isso só para citar alguns poucos pontos, porque nosso mundo é ainda muito mais complexo. As maiores empresas do planeta não produzem bens industriais tradicionais; controlam informação, redes e infraestrutura digital. O trabalho deixou de ser predominantemente fabril e tornou-se híbrido, cognitivo, fragmentado e mediado por tecnologia. O capital não está apenas nas máquinas, mas no código, nas marcas e na arquitetura de sistemas globais.

As categorias marxistas clássicas — força de trabalho industrial, mais-valia fabril, concentração dos meios físicos de produção — descrevem com precisão um estágio histórico do capitalismo. Mas não descrevem o seu estágio atual.

Marx não "descobriu" o poder — ele o reinterpretou

Grande parte do prestígio duradouro de Karl Marx decorre da ideia de que ele teria revelado as engrenagens ocultas da dominação social. No entanto, estruturas de poder, manipulação, concentração de influência e controle já eram objeto de análise muito antes dele. Em O Príncipe, Nicolau Maquiavel descreve com clareza a lógica pela qual elites mantêm poder, constroem legitimidade, administram conflitos e preservam estruturas de dominação.

O poder, portanto, não foi uma descoberta marxista. Ele é um fenômeno político estrutural da organização humana, presente em impérios, igrejas, monarquias, repúblicas e Estados modernos. A inovação de Marx não está em identificar o poder, mas em reposicioná-lo dentro da engrenagem econômica do capitalismo industrial do século XIX.

Nesse sentido, a crítica marxista ao capitalismo pode ser vista como uma transposição da lógica maquiaveliana de poder para o campo da produção econômica. A dominação deixa de ser analisada principalmente como fenômeno político e passa a ser descrita como consequência estrutural das relações de produção.

Isso levanta uma questão incômoda para a leitura contemporânea: se a relevância política atribuída a Marx deriva, em grande medida, de sua descrição de estruturas de poder, então sua contribuição não está na revelação de algo novo, mas na reaplicação de um modelo analítico já existente em outro domínio histórico. O poder já havia sido teorizado; Marx apenas mudou o palco onde ele atua.

Essa constatação não diminui seu papel histórico, mas relativiza sua suposta originalidade teórica. Quando a estrutura econômica que ele analisava se transforma radicalmente, a moldura explicativa que ele construiu perde alcance — e, com ela, parte da centralidade que ainda lhe é atribuída.

Da teoria histórica ao dogma acadêmico

Nada disso impediria Marx de ocupar lugar legítimo na história do pensamento econômico e social. O problema começa quando uma teoria concebida para um contexto específico passa a ser tratada como lente universal e permanente.

Esse fenômeno pode ser descrito como canonização intelectual. Autores tornam-se centrais não apenas por sua utilidade explicativa atual, mas por tradição institucional, reprodução curricular e identificação ideológica. A crítica deixa de ser puramente científica e passa a carregar peso simbólico. Questionar Marx não é visto apenas como revisão teórica, mas como posicionamento político.

O resultado é uma blindagem incomum para padrões acadêmicos: enquanto outras correntes são constantemente revistas, atualizadas ou abandonadas diante de mudanças estruturais, o marxismo frequentemente é preservado como referencial normativo, ainda que sua base empírica tenha se tornado historicamente distante.

A canonização de Marx e o custo acadêmico da estagnação

O principal problema não é a existência de Marx nos currículos, mas a centralidade desproporcional que ainda ocupa. Tempo acadêmico é recurso finito. A insistência em reinterpretar categorias do século XIX consome energia intelectual que poderia estar sendo direcionada a compreender os dilemas estruturais do presente.

Enquanto isso, temas decisivos para o futuro recebem atenção secundária:

• governança de inteligência artificial

• poder geopolítico das big techs

• monetização de dados

• financeirização extrema e instabilidade sistêmica

• novas desigualdades baseadas em acesso tecnológico

• sustentabilidade e limites ambientais do crescimento

A academia corre o risco de se tornar retrospectiva quando deveria ser prospectiva. Em vez de desenvolver ferramentas para melhorar o capitalismo real — torná-lo mais inovador, ético e inclusivo — parte do debate permanece presa a uma crítica estrutural voltada a um sistema industrial que já não organiza a economia global.

Há ainda um elemento histórico que não pode ser ignorado: experiências políticas que reivindicaram inspiração marxista no século XX resultaram repetidamente em regimes autoritários, supressão de liberdades e concentração extrema de poder estatal. Ainda que se argumente que tais regimes "deturparam" a teoria, o dado empírico permanece relevante. Promessas de emancipação frequentemente culminaram em novas e muito piores formas de dominação e exploração do ser humano.

A questão acadêmica legítima, portanto, não é moral, mas metodológica: por que uma tradição teórica associada historicamente a resultados políticos tão problemáticos e medíocres recebe, muitas vezes, menos ceticismo empírico do que modelos que operam dentro de sistemas democráticos e são continuamente reformados e testados?

A miséria vem reiteradamente diminuindo em países capitalistas, e paulatinamente aumentando em países com economia inspirada nos dogmas de justiça social de Marx.

O verdadeiro desafio: melhorar o capitalismo, não abandoná-lo

Lembro de tempos atrás, em conversa com os amigos da minha filha, ter proposto esse desafio: encontrem um outro modelo que seja melhor que o capitalismo.

O século XXI não enfrenta a escolha entre repetir o capitalismo industrial do passado ou substituí-lo por modelos revolucionários baseados em premissas do século XIX. O desafio é mais complexo: aperfeiçoar um sistema global, tecnológico e interdependente, reduzindo desigualdades, ampliando oportunidades e impondo limites éticos ao poder econômico e digital.

Isso exige novas lentes analíticas, não a repetição de velhas categorias e teorias do século passado. Exige pensar:

• regulação inteligente de plataformas

• governança global de dados

• responsabilidade algorítmica

• inovação sustentável

• inclusão produtiva na economia do conhecimento

Esses problemas não se resolvem com a linguagem da fábrica do século XIX, mas com estruturas conceituais voltadas para redes, sistemas complexos e poder distribuído.

Ou seja,

O ponto central não é reavaliar a importância histórica de autores do século XIX, mas questionar a hierarquia de relevância que ainda estrutura o pensamento acadêmico contemporâneo. Teorias surgem para explicar realidades específicas. Quando a realidade muda de forma profunda — tecnológica, econômica e institucionalmente — a permanência dessas teorias como eixo interpretativo principal deixa de ser tradição e passa a ser inércia.

E inércia intelectual tem custo. Enquanto o mundo gira em torno de dados, inteligência artificial, poder das plataformas, cadeias globais e crises ambientais, parte da academia continua presa a categorias moldadas para um universo de fábricas, máquinas a vapor e relações industriais que já não organizam a economia global. Não é apenas uma questão de atualização conceitual — é uma questão de desperdício de energia intelectual.

Cada hora gasta tentando encaixar o presente em modelos que não foram feitos para ele é uma hora a menos dedicada a entender os verdadeiros centros de poder do nosso tempo. O controle hoje passa por algoritmos, infraestrutura digital, redes financeiras globais e capacidade de influenciar comportamento em escala massiva. Discutir o século XXI com ferramentas analíticas do século XIX é como tentar explicar a internet com a lógica das ferrovias.

O problema já não é só apego ao passado — é medo de encarar o novo. E é aqui que a crítica precisa ser direta: a academia precisa, sim, abandonar o passado como eixo central e assumir o risco de pensar o futuro. Preservar autores históricos como referência cultural é legítimo. Organizar o pensamento contemporâneo em torno deles, não.

Se o conhecimento não serve para iluminar o tempo presente e ajudar a construir o que vem pela frente, ele vira apenas tradição repetida. E tradição, quando não é questionada, deixa de ser sabedoria e vira estagnação.

A pergunta, então, não é se o passado merece respeito. É se estamos dispostos a deixar de usá-lo como muleta intelectual e finalmente olhar para frente.